A busca pelo derradeiro amado

Caros visitantes/amigos/pacientes, a genialidade de Osho é algo realmente espetacular. A profundidade de suas palavras é capaz de emudecer as mentes mais duras, mais inquietas, e tocar fundo no coração, fazer uma conversão até no cerne da questão: O sentimento. Leia e releia atentamente esse texto e compartilhe com todos que são humanos. Vamos viver de verdade! RK

Pergunta a Osho:

Eu me apaixonei e sofri demais. Depois de ouvi-lo, eu me senti sem vontade de deixar o sonho continuar, pois meu caso de amor, no final, não conduzirá à satisfação. Como posso ir além desse apego que é tão rico e, ainda assim, tão doloroso?

O amor é ambos. É rico e é doloroso; é agonia e é êxtase, porque o amor é o encontro da terra e do céu, do conhecido e do desconhecido, do visível e do invisível.

O amor é a fronteira que divide a matéria e a consciência, a fronteira entre o inferior e o superior. O amor tem suas raízes na terra — essa é a dor, a agonia. E o amor tem seus galhos no céu — esse é o êxtase.

O amor não é um fenômeno singular; ele é dual. É uma corda esticada entre duas polaridades. Você terá que entender essas polaridades: uma é o sexo, a outra é a oração. O amor é a corda esticada entre o sexo e a oração. Parte dele é sexo, parte dele é oração.

A parte sexual está fadada a trazer muitas misérias; a parte que pertence à oração trará muitas alegrias. Daí a dificuldade de renunciar ao amor, porque, ao renunciar, a pessoa fica com medo de estar renunciando às alegrias que ele traz.

Por outro lado, não se é capaz de estar totalmente nele, porque todas aquelas dores lembram a pessoa, repetidamente, de renunciar a ele. Essa é a miséria dos amantes: os amantes vivem em tensão, divididos.

Eu posso entender seu problema. Esse é o problema básico de todos os amantes, porque o amor traz ambos,muitos espinhos e muitas flores, e ambos vêm juntos. O amor é uma roseira. A pessoa não quer aqueles espinhos. Ela gostaria que a roseira fosse só flores, sem nenhum espinho. Mas eles vêm juntos, são aspectos de uma mesma energia.

Porém não estou lhe dizendo para renunciar o amor; estou dizendo para tornar-se desapegado. O que eu estou lhe dizendo é: torne-o cada vez mais uma oração. Toda a minha abordagem é a da transformação, não a da renúncia. Você deve ter me compreendido mal. Eu não sou contra o sexo, mas sou totalmente a favor da transformação do sexo em oração. O inferior pode ser possuído pelo superior e então a dor do amor desaparece.

Que dor há na sexualidade? Ela o lembra de sua animalidade — essa é a dor. Ela o lembra do passado, ela o lembra do seu aprisionamento biológico, ela o lembra de que você não é livre, de que você está sob a escravidão dos instintos dados pela natureza, de que você não é independente da natureza, de que seus cordões são puxados pela natureza, de que você é uma marionete nas mãos de forças desconhecidas, inconscientes.

O sexo é sentido como uma humilhação. No sexo você começa a sentir que está perdendo a sua dignidade, daí a dor. E então o preenchimento é tão momentâneo… Mais cedo ou mais tarde, qualquer pessoa inteligente tornar-se-á consciente de que a satisfação é momentânea e seguida por longas noites de dor.

O êxtase é exatamente como a brisa — ele vem e vai. E o deixa num estado tão desértico, completamente frustrado, desapontado! Você esperava tanto! Muitas coisas foram prometidas pela sua parte instintiva, e nada foi deixado.

Na verdade, o sexo é uma estratégia da natureza para se autoperpetuar. É um mecanismo que o mantém reproduzindo, de outra forma as pessoas desapareceriam. Pense numa humanidade em que o sexo não mais seja um instinto e você seja livre, de acordo com a sua vontade, para entrar no sexo ou não. Então a coisa toda parecerá tão absurda, a coisa toda parecerá ridícula. Apenas pense — se não houvesse nenhuma força instintiva puxando, eu não acredito que alguém estivesse pronto para entrar no sexo. Ninguém vai por vontade própria; a pessoa vai resistindo, relutantemente.

Se você estudar, ler sobre os padrões sexuais de diferentes espécies de animais e insetos, ficará muito intrigado: como aquilo poderia ser feito se fosse deixado por conta das próprias espécies? Por exemplo: há aranhas que, enquanto o macho está copulando com a fêmea, esta começa a comê-lo. Quando a cópula acabou, o macho também acabou.

Ora, pense se as aranhas fossem livres para escolher: no momento em que os machos vissem as fêmeas, eles fugiriam o mais rápido que pudessem. Por que iriam cometer suicídio, sabendo perfeitamente disso? Eles viram outros machos desaparecerem do mesmo jeito, acontece todos os dias…

Mas quando o instinto toma conta, eles tornam-se um seu escravo. Tremendo, com medo, ainda assim eles fazem amor, sabendo perfeitamente bem que aquilo é o fim. Quando o macho está tendo o orgasmo, a fêmea começa a comê-lo. O percevejo-fêmea não tem nenhum orifício, assim é muito difícil fazer amor com ela. O macho tem que lhe fazer um buraco. Você pode ver facilmente se um percevejo-fêmea é virgem ou não, porque, cada vez que faz amor, fica uma cicatriz — é realmente como um parafuso entrando! Mas, de bom grado, ela permite.

É doloroso e há perigo de vida para ela, porque se o macho fizer o buraco em algum lugar errado ela morrerá — e há machos estúpidos também! Mas ainda assim tem-se de correr o risco. Há uma tal força inconsciente, que aquilo tem de ser aceito.

Se o sexo fosse deixado para sua decisão, eu não acredito que as pessoas entrariam nele. Há razões para as pessoas fazerem amor escondidas do público, das pessoas – porque aquilo parece tão ridículo. Se fizer amor em público, você sabe que os outros verão o ridículo daquilo. Você mesmo conhece o ridículo. A pessoa se sente caindo abaixo da humanidade, uma grande dor está presente, pois você é arrastado para trás.

Mas o sexo traz alguns momentos de completa pureza e alegria, e inocência também. Ele traz alguns momentos de intemporalidade, quando de repente não há tempo nenhum. Ele traz alguns momentos de ausência de ego também, quando, no êxtase do orgasmo profundo, o ego é esquecido. Ele lhe dá alguns vislumbres de Deus, daí não se poder renunciar a ele tampouco.

As pessoas têm tentado renunciar. Através das eras, monges têm renunciado ao sexo pela simples razão de que ele é muito humilhante, muito contra a dignidade dos seres humanos. Estar sob o impacto de algum instinto inconsciente é desumanizante, desmoralizante.

Os monges renunciaram ao sexo, eles deixaram o mundo, mas com isso toda a alegria da vida de cada um também desapareceu. Eles se tornaram muito sérios e tristes, tornaram-se suicidas. Não vêem mais nenhum sentido na vida; toda a vida torna-se sem sentido. Então, simplesmente esperam que a morte chegue e os liberte.

É um problema delicado. Como resolvê-lo? Os monges não foram capazes de resolvê-lo. Pelo contrário, criaram muitas perversões no mundo. Todas as perversões condenadas por seus supostos santos são criadas por essas mesmas pessoas.

A primeira ideia de homossexualidade surgiu nos mosteiros, porque homens eram mantidos juntos, distantes e separados das mulheres; e mulheres eram mantidas juntas, separadas e distantes dos homens.

Há mosteiros católicos onde jamais nenhuma mulher entrou em mil anos. Nem mesmo que fosse um bebê de seis meses de idade. A simples ideia parece horrível. Es-ses monges parecem mesmo perigosos – até mesmo uma menina de seis meses de idade não é permitida no mosteiro! O que isso mostra? Que medo! Que paranoia!

Naturalmente, os monges ficam misturados, juntos, e então os instintos começam a criar novos caminhos, começam a inventar perversões – eles se tornam homossexuais. A homossexualidade é realmente muito religiosa: é um subproduto da religião. A religião tem dado muitas coisas ao mundo, uma delas é a homossexualidade. Todos os tipos de perversão…

Agora não se escuta mais dizer de mulheres fazendo amor com o demônio. O demônio de repente parece ter perdido todo o interesse nas mulheres! Mas se você mantiver mulheres distantes de qualquer possibilidade de se apaixonarem, de amarem, então a mente começará a criar suas próprias projeções e, é claro, essas projeções serão muito, muito coloridas. E essas projeções estão fadadas a acontecer, você não pode evitá-las.

Assim, monges e freiras não foram capazes de resolver o problema; eles tornaram a coisa toda mais atrapalhada ainda. E a pessoa mundana, sensual, a pessoa condescendente não foi capaz tampouco de resolvê-lo. Ela sofre miseravelmente, toda a sua vida é um sofrimento. Ela continua esperando, vai de uma esperança para outra, e vai caindo em cada esperança. E, pouco a pouco, uma grande desesperança vai se instalando em seu ser.

Minha abordagem não é nem mundana nem do outro mundo. Minha abordagem não é a de se rejeitar alguma coisa, mas de usá-la. Minha compreensão é esta: o que quer que lhe seja dado, é precioso. Você pode conhecer o valor, você pode não conhecer o valor, mas é precioso. Se não fosse, a existência não lhe teria dado aquilo. Assim, você tem de encontrar meios de transformá-lo.

Você tem de tornar seu amor mais como uma oração, você tem de tornar seu sexo mais amoroso. Pouco a pouco, o sexo tem de ser transformado numa atividade sagrada. Ele tem de ser elevado. Em vez de o sexo puxá-lo para baixo, para o lodo da humanidade, você pode puxar o sexo para cima.

A mesma energia que o puxa para baixo pode puxá-lo para cima, e a mesma energia pode dar-lhe asas. Ela tem um tremendo poder. Certamente, é a coisa mais poderosa do mundo, porque toda a vida surge dela. Se ela pode dar nascimento a uma criança, a uma nova vida, se ela pode trazer uma nova vida para a existência, você bem pode imaginar o seu potencial: ela pode lhe trazer uma nova vida também. Assim como ela pode trazer uma nova criança para o mundo, ela pode dar-lhe um novo nascimento.

E é isso que Jesus quer dizer quando assim fala a Nicodemus: “A menos que você nasça novamente, você não poderá entrar no meu reino de Deus” — a menos que você renasça, a menos que você seja capaz de dar nascimento a si mesmo, uma nova visão, uma nova qualidade para suas energias, uma nova afinação para seu instrumento. Seu instrumento contém grande música, mas você precisa aprender a tocá-lo.

O sexo tem que se tornar uma grande arte meditativa. Essa é a contribuição do tantra para o mundo. A contribuição do tantra é máxima, porque ele lhe dá chaves para transformar o mais baixo no mais alto. Ele lhe dá chaves para transformar a lama em lótus.

Trata-se de uma das maiores ciências que já surgiram, mas por causa dos moralistas e dos puritanos, e das pessoas chamadas de religiosas, não se permitiu que o tantra ajudasse as pessoas. Suas escrituras foram queimadas, milhares de mestres tântricos foram mortos, queimados vivos. Toda a tradição quase inteiramente destruída, pessoas forçadas a se esconder.

Outro dia eu recebi uma carta de saniássins meus, dos Estados Unidos, dizendo que as pessoas de Gurdjieff são tão perseguidas pelo governo que elas decidiram se ocultar. Eles me escreveram: “Estamos achando que, mais cedo ou mais tarde, isso vai acontecer conosco. Devemos começar a nos preparar de modo que, caso venha a acontecer conosco, nós também possamos começar a trabalhar de urna maneira oculta?”

É possível, porque tem sido sempre assim. O trabalho de Gurdjieff também consiste em transformar a energia sexual numa integração interior — a igreja organizada está sempre contra qualquer esforço desse tipo.

Meu trabalho é impedido de todas as maneiras, meu povo é apoquentado de diferentes maneiras. Há alguns dias, o parlamento indiano discutiu, por uma hora, o que deveria ser feito comigo — como se este país não tivesse nenhum outro problema para ser discutido. Tanto medo!

E eu não estou fazendo nenhum mal a ninguém! Eu nem sequer saio para o lado de fora do portão! E, pelo menos, este tanto de liberdade é direito de nascimento de todo mundo. Se alguém quer vir a mim e quer se transformar, não é da alçada de ninguém interferir. Eu não vou até as pessoas. Se as pessoas vêm a mim e querem ser transformadas…

Que tipo de democracia é esta? Mas políticos e sacerdotes estúpidos têm estado sempre em conluio. Eles não querem que as pessoas se transformem, porque uma pessoa transformada deixa de estar sob a dominação deles. Pessoas transformadas tornam-se independentes, livres; pessoas transformadas tornam-se tão alertas e tão inteligentes que podem identificar todos os jogos dos políticos e dos sacerdotes.

Então, elas não são mais seguidoras de ninguém. Elas começam a viver uma vida completamente nova — não a vida da multidão, mas a vida do indivíduo. Elas se tornam leões; deixam de ser ovelhas.

E os políticos e os sacerdotes estão interessados em que cada ser humano permaneça uma ovelha. Somente assim eles podem ser pastores, líderes, grandes líderes. Pessoas medíocres e estúpidas fingindo-se de grandes líderes! Mas isso só é possível quando toda a humanidade permanece num grau muito baixo de inteligência, quando ela é mantida reprimida.

Até agora só dois experimentos foram feitos. Um foi a indulgência, que fracassou e que está sendo tentada novamente no Ocidente e vai fracassar novamente, fracassar completamente. O outro foi a renúncia, uma tentativa do Oriente e, também, do cristianismo no Ocidente. Também fracassou, fracassou completamente.

Um novo experimento é necessário, urgentemente necessário. O homem está vivendo num grande torvelinho, numa grande confusão. Aonde ir? O que fazer consigo mesmo? Eu não estou dizendo para renunciar ao sexo; estou dizendo para transformá-lo. Ele não precisa permanecer simplesmente biológico: traga alguma espiritualidade para ele.

Enquanto estiver fazendo amor, medite também. Enquanto estiver fazendo amor, mantenha-se num estado devocional. O amor não deve ser apenas um ato físico; derrame sua alma nele. Então, lenta, lentamente, a dor começa a desaparecer e a energia contida na dor é liberada e torna-se cada vez mais uma bem-aventurança. Então, a agonia é transformada em êxtase.

Você diz: “Eu me apaixonei e sofri demais“. Você é abençoada. As pessoas realmente pobres são aquelas que nunca se apaixonaram e nunca sofreram. Elas, absolutamente, não viveram. Apaixonar-se e sofrer no amor é bom. É passar pelo fogo; purifica, lhe dá insights, torna-o mais alerta. Esse é o desafio a ser aceito. Aqueles que não aceitam esse desafio permanecem fracos.

Você diz: “Eu me apaixonei e sofri demais. Depois de ouvi-lo, eu me senti sem vontade de deixar o sonho continuar, pois meu caso de amor no final, não conduzirá à satisfação“. Eu não estou dizendo para abandonar seu amor; estou simplesmente expondo um fato: que ele não lhe trará o contentamento definitivo.

Não está em minhas mãos transformar a natureza das coisas. Estou simplesmente declarando um fato. Se estivesse em minhas mãos, eu gostaria que você conseguisse o contentamento definitivo no amor. Mas isso não acontece. O que podemos fazer? Dois mais dois são quatro.

É uma lei fundamental da vida que o amor o leve a insatisfações cada vez mais profundas. No final, o amor o leva a tal descontentamento que você começa a ansiar pelo derradeiro amado, Deus, você começa a buscar pelo derradeiro caso de amor.

O sânias é um caso de amor derradeiro, é a busca por Deus, a busca pela verdade. Ele só é possível quando você já fracassou muitas vezes, amou e sofreu, e cada sofrimento lhe trouxe cada vez mais e mais consciência, cada vez mais e mais compreensão.

Um dia vem o reconhecimento de que o amor pode lhe dar alguns vislumbres — e esses vislumbres são bons, e esses vislumbres são vislumbres de Deus —, mas ele só pode lhe dar vislumbres. Mais não é possível. Mas isso também já é muito: sem esses vislumbres, você nunca irá procurar nem irá buscar Deus.

Aqueles que não amaram e sofreram nunca se tornaram buscadores de Deus — eles não podem, eles não conseguiram essa riqueza, não se tornaram merecedores dela. É um direito exclusivo do amante, um dia, começar a buscar pelo derradeiro amado.

Ame, e ame mais profundamente. Sofra, e sofra mais profundamente. Ame e sofra totalmente, porque é assim que o ouro impuro passa pelo fogo e se torna ouro puro.

Eu não estou lhe dizendo para fugir dos seus casos de amor. Vá fundo neles. Eu ajudo meus saniássins a entrarem no amor porque eu sei que o amor, no final, fracassa.

E a menos que eles saibam por experiência própria que o amor, no final, fracassa, a busca por Deus permanecerá falsa.

Osho, em “Vida, Amor e Riso”

Um comentário sobre “A busca pelo derradeiro amado

  1. Rodrigo, a analise de Osho e profunda,interessante. E fala no desapego. Acredito que o amor pode e deve ser transformado, e arte e sentimento verdadeiro. Obrigado pela postagem!

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