O Livro de Mirdad

Uma das mais antigas e conceituadas empresas editoriais de Londres respondeu ao autor de um manuscrito que lhe foi enviado para análise: …"este livro representa tal modificação do dogma cristão comum que, poder-se-ia dizer, seria necessário fundar uma nova igreja na comunidade inglesa, para que houvesse a possibilidade de ele ser vendido em quantidade que compensasse sua publicação. Somos-lhe muito gratos por ter-nos dado, em primeiro lugar, a oportunidade de ver um livro tão fora do comum".

Ao que o autor respondeu:

"É absolutamente verdadeiro que o livro se desvia do dogma cristão comum. Desvia-se também de todos os dogmas estabelecidos, sejam eles religiosos, filosóficos, políticos ou de qualquer espécie. E por que há de ser um dogma assim tão sagrado e imutável? Poderá algum dia a verdade ser encerrada em determinadas palavras e em nenhuma outra? É exatamente nisso que está a razão de ser deste livro: revelar novos caminhos para, assim, poder-se aproximar dos eternos problemas da existência. Caso ele não passasse de uma simples variante ou confirmação de uma crença ou de um sistema qualquer de pensamento estabelecido, eu não me teria dado ao trabalho de escrevê-lo. Embora concebido e escrito em inglês, ele não se destina exclusivamente ao público de língua inglesa, nem pretende causar um choque ou alarme aos fiéis de qualquer crença, mas sacudir a humanidade que se acha entregue à letargia dogmática, prenhe de ódio, luta e caos".

Assim é O livro de Mirdad, do libanês Mikhaïl Naimy. O livro foi publicado em 1948, e faz parte da biblioteca do Lectorium Rosicrucianum (Rosacruz Áurea), e mostra com rara beleza e poesia o caminho para a ascensão do Homem à Deus (porque ele é Deus e não o sabe).

 

Um resumo da introdução:

No mais alto cume das Montanhas Alvas, conhecido como o Pico do Altar, jazem as vastas e sombrias ruínas de mosteiro outrora famoso, com o nome de A ARCA. A tradição ligava a uma antigüidade tão venerável quanto a do Dilúvio, e seu fundador o próprio Noé. Reza a lenda que Noé disse a seu filho: "Assalta-me um receio de que os homens, com o tempo, se esqueçam do Dilúvio e da luxúria e maldade que o provocaram; de que também se esquecem da Arca e da Fé que a susteve em triunfo durante 150 dias sobre a fúria dos abismos vingadores e de que nem se lembrem da Nova Vida que surgiu dessa Fé da qual eles são o fruto. Para que eles não esqueçam, eu te peço, filho meu, que levantes um altar sobre o mais alto pico destas montanhas, e rogo-te que construas, à volta desse altar, uma casa que em todos os pormenores corresponda à Arca e que, sendo embora, de menores dimensões, será chamada A Arca".

Nove monges habitavam o lugar, pois esse foi o número dos que habitavam a Arca original. Segundo Noé, a 9ª pessoa "era um clandestino, que somente eu vi e conheci. Era meu constante companheiro e meu homem do leme. Nada mais me perguntes sobres ele, mas não deixes de lhe guardar um lugar no teu Santuário. Esta é minha vontade".

Quando Noé morreu, seus filhos lhe enterraram debaixo do altar, na Arca, que por muitos e muitos anos continuou a ser, de fato e em espírito, o verdadeiro Santuário idealizado e ordenado pelo venerável conquistador do Dilúvio. Com o passar dos séculos, porém, a Arca principiou, pouco a pouco, a receber dos fiéis donativos muito além do que realmente necessitava. De tal fato resultou que se foi tornando, de ano para ano, mas rica em terras, prata, ouro e pedras preciosas.

Um dia, há algumas gerações atrás, tendo falecido um dos nove, apresentou-se um estranho aos portões do mosteiro, solicitando admissão na comunidade. De acordo com as antigas tradições da Arca, tradições essas que jamais haviam sido violadas, o estranho deveria ser imediatamente admitido, já que havia sido o primeiro a solicitar essa admissão, após o falecimento de um dos nove. Mas o Superior da comunidade era um homem prepotente, de mentalidade mundana e coração duro. Não se agradou da aparência do estranho que estava nu, faminto e coberto de chagas; disse-lhe que era indigno de ser admitido na comunidade. Aceitou-o, porém, como servo, profissão que o estranho exerceu por 7 anos em total silêncio, enquanto o mosteiro acumulava riquezas incalculáveis, comprando para si todas as terras e vilas por muitas milhas ao seu redor.

No oitavo ano, o servo resolve falar.

 

A PALAVRA CRIADORA

 

Velados estão vossos olhos com grande número de véus. Cada coisa sobre a qual lançais vosso olhar é um véu. Selados estão vossos lábios com grande número de selos. Cada palavra que pronunciais é um selo.

As coisas, sejam quais forem as suas formas e espécies, são somente véus e ataduras com que a Vida está atada e velada. Como poderão os vossos olhos, que são em si mesmo um véu e uma atadura, levar-vos a algo que não seja às ataduras e véus?

E as palavras? Não são elas seladas por letras e sílabas? Como poderão os vossos lábios, que são em si mesmo selos, balbuciar algo que não seja selo?

Os olhos podem velar, porém não podem penetrar os véus.

Os lábios podem selar, porém não podem quebrar os selos.

Não lhes peçam nada mais do que eles podem dar. Essa é a parte que lhes toca na atividade do corpo e eles bem a desempenham. Para penetrardes além dos véus necessitais de olhos outros que não aqueles dotados de pálpebras e sobrancelhas, e para quebrar os selos precisais de outros lábios que não aqueles de carne. Vede, em primeiro lugar, corretamente, os vossos olhos, se quiseres ver corretamente as outras coisas. Se não virdes e não falares corretamente, nada mais vereis senão a vós mesmos e nada mais pronunciareis senão a vós mesmos. Se, pois, vosso mundo é um enigma indecifrável, é porque vós mesmos sois enigmas indecifráveis. E se o vosso falar é uma deplorável confusão, é porque sois essa deplorável confusão.

Deixai as coisas como elas são e não vos esforceis para modificá-las. Porque elas parecem ser o que parecem devido a vós parecerdes o que pareceis. Se elas vos falarem asperamente, atentai para vossas línguas. Se vos parecem feias, procurai a fealdade, em primeiro e último lugar, nos vossos próprios olhos. Não deveis pedir às coisas que se dispam dos seus véus. Tirai vós próprios os vossos véus, e elas perderão os seus.

A chave para remover os véus de si mesmo e quebrar os próprios selos é uma palavra que deveis trazer eternamente presa em vossos lábios. É a menor e a maior de todas as palavras. Mirdad a denominou A PALAVRA CRIADORA. "Eu", ó monges, é a Palavra Criadora. Quando disserdes eu, acrescentai, imediatamente, em vossos corações: "Deus seja o meu refúgio contra a malignidade do eu e meu guia para a bem-aventurança do eu", pois nessa palavra, embora tão pequena, está encerrada a alma de todas as outras palavras.

Vosso eu nada mais é do que a vossa consciência de Ser, silenciosa e incorpórea, que se faz sonora e corpórea. É o inaudível que se torna audível; o invisível que se torna visível; a visão que os permite ver o que não se vê; a audição que os permite ouvir o que não se ouve. Ainda tendes presos os vossos olhos e os vossos ouvidos. E se não virdes com os vossos olhos e não ouvirdes com os vossos ouvidos, nada vereis e nada ouvireis. Basta que penseis eu, e um mar de pensamentos se agitará dentro de vossas cabeças. Esse mar é uma criação de vosso eu, que é, ao mesmo tempo, o pensador e o pensamento. Se tendes pensamentos que apunhalam, que mordem o despedaçam, ficai certos de que somente o eu-em-vós lhes deu o punhal, os dentes ou as garras.

Pelo mero pronunciar eu, trazeis à vida uma multidão de palavras, cada qual símbolo de uma coisa; cada coisa, símbolo de um mundo; cada mundo, parte de um universo. Esse universo é criação do vosso eu, o qual é, ao mesmo tempo, o criador e criatura. Se houver alguns duendes em vosso universo, podeis estar certos de que foi o vosso eu quem os criou. Conforme for a vossa consciência, assim será o vosso eu. Conforme for o vosso eu, assim será o vosso mundo. Se o vosso eu for uno, o vosso mundo será uno; e vós tereis a paz eterna com todas as hostes celestiais e os habitantes da Terra. Se o vosso eu for múltiplo, o vosso mundo será múltiplo; e estareis em perpétua guerra com vós mesmos e com todas as criaturas dos domínios imensuráveis de Deus.

O eu é o centro de vossa vida de onde irradiam as coisas que constituem a totalidade de vosso mundo e para o qual elas convergem. Se ele for firme, o vosso mundo será firme, e não haverá forças em cima ou em baixo que vos possam desviar para a direita ou para a esquerda. Se for instável, vosso mundo será instável; e sereis um folha indefesa colhida pelo terrível redemoinho do vento. Alerta! Eis que o vosso mundo é firme, não há dúvida, somente, porém, na instabilidade. E o vosso mundo é certo unicamente na incerteza. E é constante o vosso mundo, mas tão só na inconstância. E o vosso mundo é uno, mas somente na multiplicidade.

O vosso é um mundo em que os berços se tornam sepulcros, e os sepulcros se tornam berços; em que os dias devoram as noites, e as noites vomitam dias; de paz, declarando guerra, e de guerra, implorando paz; em que os sorrisos flutuam sobre as lágrimas, e as lágrimas brilham nos sorrisos. O vosso é um mundo em constante trabalho de parto, em que a parteira é a Morte. O vosso é um mundo dividido contra si mesmo, porque vosso eu é assim dividido.

O vosso é um mundo de barreiras e de cercas, porque o vosso eu é uma dessas barreiras e cercas. Ele põe uma cerca para que aquilo que lhe é estranho não entre, e estabelece outra para aquilo que lhe é afim não saia. No entanto, o que está para fora da cerca se põe a passar para o lado de dentro, e o que está dentro se põe a passar pra fora, pois sendo ambos prole da mesma mãe – e também o vosso eu – não podem ser separados. E vocês, em vez de se regozijarem com a sua feliz união, tornam a continuar o infrutífero trabalho de separar o inseparável. Em vez de estabelecerem a divisão de vosso eu, despedaçam a vida na vã tentativa de tentar separar aquilo que pensam ser o vosso eu daquilo que julgam não ser o vosso eu. Eis porque as palavras dos homens são embebidas em veneno. Eis porque são os seus dias são ébrios de tristeza. Eis porque são as suas noites tão atormentadas pela dor.

Mirdad, ó monges, estabelecerá a divisão em vosso eu para que possais viver em paz convosco mesmo, com todos os homens e com todo o universo.

Mirdad extrairá o veneno de vosso eu para que possais provar as doçuras da Compreensão.

Mirdad vos ensinará a pesardes o vosso eu para que conheçais a alegria do PERFEITO EQUILÍBRIO.

 

No Dharma, RCAV+C

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